aqui estou eu. chove lá fora e tá frio. é uma terça-feira, dia 15 de novembro. aqui dentro só eu estou acordado. os outros dormem. essa é a última das várias guardas que tirei durante esse ano de serviço militar. agora pouco, resolvi pegar a capa de chuva e fui dar uma volta pelas cercanias do quartel. fui andando e pensando. na vida, na ordem natural das coisas, em Deus, na família, na guria que ainda amo, no meu futuro. é interessante como todas as coisas acabam acontecendo. pensei e refleti no que aconteceu até agora. e parei no escuro, perto de um poste. percebi que tem momentos na vida que nos sentimos sem um norte, sem algo que vá nos direcionar a algo específico. uns tendem a passar por esses momentos de maneira mais tranquila, outros não.
continuei a andar. e passei a respirar fundo. a sentir o momento. o som das gotas tocando o solo e a capa de chuva, o barulho das árvores ao vento e o sopro da noite. fecho os olhos e vejo cada uma dessas coisas me cercando. lembro dos momentos bons que vivi e que estão na minha memória. quão boa e prazerosa sensação é essa, confesso. recordar-se do que já passou é algo reconfortante, e nos inspira a seguir e crer que podemos fazer tudo acontecer outra vez, e de maneira melhor e mais intensa, porque não?
voltei a caminhar. a cada passo que dava, via os momentos atuais da minha vida me cercando. a dor, a dúvida, as incertezas sobre o que há de vir misturados com uma dose de expectativa e temperados com uma pitada de ansiedade às vezes me assombram, admito. ver quem você tanto ama sofrer é uma péssima sensação. e, pior ainda, é ver quem você ama ir embora, e não poder agir pra trazê-la de volta aos seus braços. falhei, falhei, falhei. deveria ter agido melhor. sido uma pessoa melhor. com ela, com ele, com eles e elas.
quando me dou conta, se passaram vários minutos. volto pra minha cama e aqui estou, ouvindo a chuva cair, escrevendo isso. envolto e imerso na mais completa escuridão, penso. sonho. imagino. creio. e espero. porque esperar é caminhar, e vou andando pelo caminho estreito e apertado, em direção ao meu propósito, ao meu destino. vou andando para Casa, e a cada dia menos aqui é um dia mais perto do meu Pai.
por fim, vejo que entendi. passei a ver. vislumbro agora, mesmo envolto pelas sombras, o que se deve fazer. vejo que o tempo se esgota, e há a necessidade de agir. parar de falar. crescer. e assim, na totalidade da palavra, viver.
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