domingo, 2 de novembro de 2014

o peregrino

em cada passada, em cada suspiro, o peso aumentava. as amarras do fardo que era carregado começavam a deixar mais marcas. sob o sol escaldante ou sob o luar duma noite congelante, caminhava em direção ao futuro, mas com o passado sempre presente, sempre constante.

na constante marcha, mais experiências eram acumuladas. faces passavam. eram pessoas que desvaneciam conforme ele prosseguia. e ele andava. atravessava lugares obscuros e iluminados, cheios e vazios, calmos e agitados. ampliava seu rol de sensações sentidas. grandes decepções e sentimentos indescritíveis eram condensados num misto de emoções positivas e negativas. e a bagagem aumentava.

ora em passos trôpegos e vacilantes, ora em passos firmes e determinados, ele continuava a perseverar. nas pegadas deixadas, o volume do que era constantemente acumulado o puxava não para baixo, mas para trás. os nós que mantinham o fardo em suas costas tornavam a caminhada exaustiva, excruciante. diante disso, ele ficava cada vez mais confuso, aturdido, desnorteado.

estava ele caminhando por caminhos errados? deveria voltar as veredas antigas? abandonar alguns hábitos destrutivos adquiridos nessa longa, complexa e cansativa jornada? honrar a memória das faces que já partiram pra Eternidade? assumir de volta o manto do propósito supremo da vida, designado desde sua concepção?


tais perguntas marcavam cada batida do coração, cada toque da sola de seus pés no chão. e com os calos adquiridos, lentamente o jovem peregrino mudava sua direção. e foi-se embora pelos dias, buscando a luz, o sentido das coisas e a liberdade dos laços que ainda o atavam ao seu fardo. 

domingo, 31 de agosto de 2014

soma

a tecla de delete recebeu uma atenção especial naquele dia. eram várias tentativas de se escrever alguma coisa que prestasse. “puta merda, eu dependo disso pra viver”, ecoou na aflita mente a voz do dever. e por falar na mente, de tanto ler sobre os perrengues nos noticiários todo dia a mente dele parecia uma zona de guerra. uma bagunça total.

uma completa anarquia.

a medida em que ele tentava escrever uma linha, um título - em resumo, continuava a tentar sobreviver e cumprir seu propósito através daquilo que escrevia - sua mente tentava se reorganizar.

era crítica a situação.

nem a música, a companheira de todas as horas, o álcool, companheiro dos momentos felizes (ou nem tanto), ou ainda a cafeína e a nicotina, companheiras dos momentos de nervosismo e estresse, podiam ajudar nessa situação. apesar de ele conseguir ter um vislumbre de que o atual momento é passageiro, através do resquício de racionalidade que conseguia achar em meio a balbúrdia instalada em sua psique (vai embora, síndrome da punhetação filosófica), ele não conseguia acalmar esse vendaval de ideias conflitantes.

no meio de tudo isso ele precisava da fuga. não de qualquer fuga, seja ela da rotina, do comum ou de qualquer uma das coisas relacionadas.

era dele mesmo que ele precisava fugir.


respirou fundo. uma, duas, três vezes. fechou os olhos, e começou a se desligar das coisas. do mundo. dos dilemas da vida. das convenções que regem as frágeis, efêmeras e superficiais relações interpessoais.

progressivamente, o estupor ia ocupando mais e mais espaço dentro da mente hiperativa. a dose diária de “felicidade”, que garante ao jovem seus momentos de escape do admirável mundo novo em que vivemos neste século, já fazia efeito sobre os sentidos.

e na soma, assim passei a régua no meu dia, sem saber quando voltaria à realidade.

segunda-feira, 18 de agosto de 2014

atração e efemeridade

tudo geralmente começa com um oi. as coisas evoluem rápido, chegando em seu ápice quando entram em ebulição os desejos que estavam sendo acumulados. e tão rápido quanto a própria escalada da atração mútua entre os dois corpos, dissipam-se o interesse, a paixão e o tesão que causaram tão intensa mas tão breve "relação".

é nessa essa constante efemeridade em que nós, enquanto seres humanos interessados em nossos pares, vivemos hoje. a realidade na qual estamos inseridos no século 21, que por vezes acontece de forma paralela a outras situações similares, como se ocorresse em várias camadas ou em vários níveis, é a bola da vez. está por aí, espalhando-se e se replicando vorazmente, com uma força espetacular.

assim, o ciclo se repete de forma quase mecânica com boa parte das pessoas que conhecemos. no entanto, muitas delas não conseguem se adaptar e sobreviver nessa nova regra, que acaba ditando a nova dinâmica dos relacionamentos interpessoais em nosso tempo. suas memórias são trucidadas sem misericórdia, nem as melhores experiências ou lembranças passam incólumes por essa rotina cruel.

no fim, a força de cada indivíduo vai se dissolvendo num coletivo de mentes que pensam, falam e agem da mesma maneira. todos abdicam daquilo que os tornam únicos em prol da busca por uma vida que nunca possuirão, correm desesperados buscando chamar atenção de pessoas que nunca se importarão.

e assim vivemos nos dias de hoje.

quarta-feira, 7 de maio de 2014

vila da paz

aquele lugar distante era pra onde minha mente fugia quando ela queria descansar. ao menos não há limites para a imaginação e para as memórias, e assim elas podem transcender quaisquer barreiras que a presença física muitas vezes impõe. uma lembrança, uma conversa, uma foto, uma vista, um som, um olhar, cada detalhe funciona como porta de embarque para destinos certos e específicos, ora próximos, ora distantes.

flutuando pelos céus de um lugar desértico, começo a ver o verde e o azul contrastarem com a paisagem morta. e velozmente minha imaginação chega a cada vez mais perto daquele lugar onde ela encontra sossego. e no som das teclas de um piano velho e desafinado ela pode encontrar alento e afago, nostalgia e esperança, energia e tranquilidade.

trovões distantes anunciam tempos nebulosos lá fora. mas aqui dentro, onde ninguém vê, lá está minha mente, pronta pra encarar mais uma viagem a um lugar distante, bem ao sul de lugar nenhum. nos relâmpagos que cada vez mais se aproximavam do exterior, o interior se fechava, se protegia e se defendia com a luz da iminente escuridão que acompanhava a tempestade.

e na luz cessante de um fim de tarde ímpar, recarregados eram os ânimos da mente através da contemplação. da admiração. da meditação. 

do mais profundo silêncio.


Lago Ezequiel Ramos Mexía, Villa El Chocón, Neuquén, Argentina. 27/12/12

domingo, 27 de abril de 2014

fim

andando pelas ruas numa madrugada dessas por aí, brotou na minha mente a ideia de voltar a escrever textos. não é segredo que sinto uma paixão imensa pelas letras, pelas palavras e frases, e mais recentemente pelos versos. a cada passo que dava na madrugada cujo vento gelado servia como um prelúdio para os iminentes (e duradouros, espero) dias de frio, uma pulsação de ânimo corria pelo corpo e aquecia minha mente.

mas ao sentar na frente de meu computador, ou ao abrir meu caderno de anotações, nada acontecia. a mesma energia que me aqueceu na gélida noite de outono parecia não estar em mim mais. repetidamente escrevi algumas frases, que logo eram apagadas para dar lugar a mais frases, que deram início a um ciclo quase interminável de fracassos na minha desesperada tentativa de produzir um texto útil.

foi aí que pensei: seria isso o fim de uma era?


se pra sempre ficarei sem escrever meus textos, eu já não o sei dizer. só espero que esse não seja o último desaguar do rio das ideias convertidas em palavras no mar dos pensamentos gerais das outras pessoas. só torço pra que esse não seja o último suspiro de uma mente ora cansada, ora esperançosa. só torço que meu eu-escritor (com exceção do eu-poeta) não se perca no turbilhão de mudanças vividas a cada dia.

segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

zero-hora

e quando o relógio anunciou a zero hora, outro dia começou. para uns, era um dia especial. para outros, mais um dia na rotina. muitos contam como sendo um dia a menos: para o fim de semana, para o próximo feriado, para uma viagem etc. poucos sentem a contagem de seus dias chegar ao fim.

na virada do dia, as realidades se chocam. o passado, o presente e o futuro de bilhões se condensam, se misturam e se conectam. o que acontece agora vira lembrança. e a esperança daquilo que virá neste novo dia irá se tornar momento, e logo após será apenas memória, um memento.

em mais um dia que começa, uns sobreviverão. poucos viverão. alguns partirão pra eternidade. muitos se conhecerão. vários, que outrora caminhavam juntos, escolherão caminhos diferentes para trilhar. é um ciclo que se renova e se repete nas diversas zonas horárias do planeta que conhecemos como Terra.

dia após dia vemos as anunciações das meias-noites nos deixando mais próximos daquilo que desconhecemos completamente, mas que de forma perene habita nossas mentes, nossos corações, nossas almas, numa ânsia insaciável dentro de nós, que abastece o desejo de desbravar o futuro, trazê-lo ao presente e trabalhar para que boas memórias fiquem no passado.

esperamos, a cada vez que o dia se finda no último minuto que antecede a meia-noite, um novo e melhor amanhã. 

e para a felicidade de todos, ele sempre chega acompanhado.

quarta-feira, 15 de janeiro de 2014

sobre o amar de fato

amar, no sentido mais bruto e cru da palavra, significa estar tomado de um sentimento sublime, inebriante, capaz de nos deixar embriagados de paixão e carinho por algo ou alguém. esse sentimento nobre e elevado é algo complexo e que per se subsiste, é um axioma, uma verdade incontestável. diz a frase clássica: o amor não se explica, apenas se sente.*

mesmo assim, o amor também pode causar danos e levar a outros sentimentos negativos, que por sua vez podem causar sentimentos autodestrutivos na pessoa que o sente. o próprio ato de amar requer extremo cuidado: podemos entrar num caminho sem volta, no qual teremos sim alegrias, mas as chances de tristezas, dores, angústia e sofrimento são altas e tão presentes quanto o ar que respiramos.

como saberei se amo de fato? com tal pergunta um grande amigo me surpreende; confesso que a surpresa foi boa e me pus a pensar sobre essa questão.

em tempos nos quais as responsabilidades - e as consequências dos nossos atos - aumentam em quantidade, gerando como efeito uma grande preocupação sobre diversos fatores de nossas vidas (isso tudo cada vez mais cedo), é lógico que a questão do amor desperta em nós uma preocupação grande, já que o amor tem o poder de definir nosso destino, nossa missão, nossa vocação, nossas companhias. um pequeno deslize aqui e estaremos condenados a uma situação da qual poderemos sair vitoriosos, mas gravemente feridos (quem lê, que entenda o sentido).

essas preocupações podem trazer dúvida ao que é incontestável, aquela verdade que pulsa e flui através de nós quando vemos nossa amada nos chamando, para citar um simples exemplo. e assim, penso eu, que ficamos em dúvida sobre o que sentimos. mas, para responder a pergunta, creio que devemos olhar para nós mesmos e analisar o que acontece em nosso íntimo quando estamos perto de nosso objeto de apreço, e mais ainda quando estamos longe. é aí que se encontra a resposta.