era um dia ensolarado. o céu estava azul, as árvores dançavam ao sabor do vento, e por entre os galhos e folhas, o brilho do astro-rei dourava a grama, o asfalto e as casas. abri a janela e fiquei admirando a tão bela paisagem que se desenhou em frente de mim.
com o vento, ondas sonoras de um festejo flutuavam em direção aos meus ouvidos. elas, num sutil sussurro, num suave canto, me convidavam a caminhar. assim o fiz: peguei minhas coisas, abri a porta e senti o calor do sol em minha pele. ao colocar os pés descalços na grama, sentia o quão real tudo aquilo parecia ser. e andei.
podia ouvir melhor o som da festa a cada passo que dava. olho para os lados e vejo coisas passarem velozmente. eram flashes, imagens, vislumbres de memórias distantes que tomavam forma ao meu redor. por mais estranho que tudo parecia ser, o som distante continuava a me chamar. e eu caminhava... sentia a brisa calma, podia ver as copas das árvores dançando como numa coreografia exaustivamente ensaiada. tudo era perfeito.
e andei. desci a rua, pisei no asfalto e em pedras soltas espalhadas pelo tapete negro, que era cortado por vívidas faixas brancas e douradas. os pássaros cantavam e assobiavam do alto dos galhos das árvores. e destes, caíam as folhas secas que, ao tocarem o chão, formavam um grande tapete de tonalidades distintas, voando a cada sopro do vento. era a orquestra da natureza fazendo coro com o som que eu ouvia cada vez mais alto.
era certo: me aproximava cada vez mais da fonte de tão agradável som. passei a ouvir os copos cheios brindarem, as vozes e risadas, os talheres batendo em pratos de porcelana fina. música aos meus ouvidos! era uma divertida festa. mas algo estava errado.
apesar de não carregar nada, senti-me cansado. o peso das lembranças que eu passei a não mais reconhecer, das histórias que eu nunca ouvi, dos rostos que não acariciei, das bocas que nunca beijei estavam ali. sem braços, eles me puxavam, tornando minha caminhada rumo à festa mais estranha e cansativa. os acordes doces da sinfonia da natureza estavam fugindo da melodiosa harmonia de outrora. ainda assim, me mantive focado no objetivo.
e cheguei! fui recebido calorosamente. abraços e sorrisos abundavam no grande salão. havia fartura de calor humano, de aconchego, de conforto, mesmo não sabendo o que acontecia e quem lá estava. foi aí que tudo mudou.
senti o peso da caminhada. os rostos que há pouco não me eram familiares, se tornaram marcas presentes do tempo que passou. grandes amigos e amigas, companheiros e pessoas que estimo estavam reunidos ali. alguns com aparências mudadas, transformadas por décadas de vida que não me recordo de ter vivido. muitos sinceramente felizes, agradecendo por eu finalmente ter chegado.
sem ainda entender, foi aí que me vi no espelho: estava velho, rosto enrugado, mãos calejadas, aparência exausta. corri com o pouco de fôlego que havia me restado para fora e olhei para o caminho que fiz. e lá em cima, em frente da casa de onde parti, meu eu mais jovem me fitou, carregando na face um semblante triste.
a luz brilhante lentamente sumiu, dando lugar a escuridão. e nesse instante, compreendi o sentido de tudo. era o fim da minha jornada? talvez.
acordei em seguida, me levantei da cama e percebi que tudo era um sonho. tudo foi tão lúcido e tangível quanto uma vida inteira capturada em intermináveis rolos de filme. em seguida, me dirigi até a janela e a abri, concluindo em seguida: no cinema dos sonhos você é o roteirista, o diretor, o espectador e claro, o protagonista.
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