quarta-feira, 23 de outubro de 2013

a corrida do amor

em um daqueles dias quando a falta de sono é inversamente proporcional a necessidade de acordar cedo no dia seguinte pra seguir a rotina, geralmente eu fico preocupado. é claro que parte da preocupação era por conta da insônia, mas não somente por causa dela.

no meio dessa preocupação, e depois de uma série de pensamentos correlatos, uma ideia brotou na minha mente (este texto é fruto direto da ideia). ao anotar no meu celular o cerne da ideia, consegui dormir (ufa).
é engraçado quando pensamos em algo sob um ponto de vista que nunca analisamos antes. não sei qual a razão, mas as muitas divagações da minha mente sobre amor, paixões (o plural é intencional) e relacionamentos íntimos me levaram a essa analogia: o amor, hoje em dia, é uma corrida num circuito fechado.

você conhece a pessoa. trocam beijos, carícias, palavras, presentes, fluídos. com um empurrãozinho do tempo, as coisas se tornam mais intensas. eventualmente rola uma transa, um jantarzinho romântico, madrugadas a fio perdidas trocando mensagens via Whatsapp, SMS ou Facebook. é inevitável: o sentimento brota e começa a florescer.

mas e aí? o que vem depois? um namoro, claro. passam-se os dias, semanas, meses e até anos. a cada data importante é como se uma volta completa no circuito do amor fosse dada. mas o trajeto permanece o mesmo. sem contar os problemas: discussões, intrigas, ciúme, sentimento de posse vão aos poucos minando a nossa capacidade de continuar correndo com fôlego e energia nesse circuito. e, no fim das contas, a gente acaba quebrado e sozinho.

o interessante é: eu, particularmente, não sou muito fã dessa ideia, apesar de conseguir identificar isso (e muito) em diversos relacionamentos de amigos e amigas hoje em dia. meu ideal seria uma espécie de rally: se aventurar por campos desconhecidos, sem traçar o mesmo caminho sempre e sempre...

mesmo sabendo que o trajeto seria muito mais complicado e as chances de obstáculos ou problemas intervirem serem maiores, o que interessa aqui é a companhia: com a pessoa certa do meu lado, sei que posso transpor tais empecilhos facilmente, e assim eu e ela – nós – podemos seguir juntos, um guiando o outro nesses caminhos de pedras que a vida oferece.

domingo, 29 de setembro de 2013

ciclos

as coisas se sucedem e, depois de um tempo, se repetem. quem nunca  parou para pensar nessa ordem cíclica das coisas? fui acordado pelo som de um trovão e não consegui voltar mais a dormir. o quarto escuro e a noite fria me davam todas as condições pra eu ter um sono gostoso e relaxante. mas não, minha mente se recusava a ficar em repouso.

o tempo vai passando, a chuva continua a cair. alguns relâmpagos iluminam o quarto, e fiquei no meio da luta entre a mente hiperativa e o corpo exausto. esta luta é um belo exemplo de como as coisas acabam acontecendo e se repetem com certa frequência.

resolvi respirar fundo e ficar em silêncio. a chuva caía, os relâmpagos iluminavam a noite escura, os trovões anunciavam que o tempo não iria melhorar tão cedo. mas um dia, o sol apareceria, tudo ficaria claro de novo, o calor tomaria conta da cidade e do coração das pessoas. as águas evaporariam, nuvens de chuva seriam formadas, e assim a chuva cairia novamente.

períodos turbulentos da vida acontecem com frequência. é bem certo que todos nós vamos sofrer durante nossa existência, seja com a morte de alguém que amamos, seja através de uma dor física, ou quem sabe nas paixões, nos relacionamentos, no amor. sempre algo ou alguém vai embora, e precisamos estar preparados para isso.

mas a questão é: nenhum tormento terreno é eterno. nada é maior do que nossa capacidade de lutar e vencer. nós fomos feitos com base num ser Perfeito, Único, Eterno. as dores passageiras dessa efêmera existência não podem nos abater, pois fomos criados para a eternidade.

pensei nisso. era como se finalmente algo tivesse sido desativado em mim. no caso, era a teimosia da minha mente. fechei meus olhos, ainda ouvindo o som da chuva e dos trovões, e dormi, sabendo que no dia seguinte encontraria o sol da esperança brilhando novamente.

segunda-feira, 23 de setembro de 2013

próxima parada

Tudo indicava que este seria mais um dia daqueles bem ordinários. Com o friozinho que fazia, deu até aquela preguiça de levantar. “Que vida fodida e ingrata” foi um pensamento que passou na cabeça, mas ele acabou descendo pelo ralo da pia enquanto lavava meu rosto.

Antes de sair de casa, fiz aquele checklist mental pra ver se eu não tava esquecendo algo. Mochila, chaves, fones de ouvido, minha cabeça – tudo estava aparentemente em seus devidos lugares. Corri para não perder o coletivo. Cheguei exausto: tô bastante sedentário, concluí ao sentar ao lado de uma janela.

Como de costume, coloquei meus fones de ouvido. Mergulhei na atmosfera de sempre, e fiquei isolado curtindo as vibrações sonoras, no meio da lotação incomum no ônibus naquele horário do dia.

Numa das paradas que o coletivo fez em direção ao seu destino, surge uma figura incomum no meio de tanta gente acostumada a essa realidade diária. Pra mim, era estranho. Bom, na verdade era como se a música tivesse se materializado ali mesmo. 

A pele dela, que era suave e clara, brilhava como se fosse prata. Os cabelos tinham tonalidades loiras, os olhos pareciam ter uma incomum chama azulada. As roupas, que eram bem simples, reforçavam o protagonismo que a beleza dela exercia naquele ônibus lotado.


Enquanto a fitava, o ônibus parou. No meio das pessoas, não a vi mais, e assim continuei com minha jornada, rumo ao meu destino, sem saber o que fazer, mas sabendo que jamais tal situação aconteceria. Bom, era o que eu pensava.

domingo, 15 de setembro de 2013

tempesta(r)de

era a glória do fim de tarde. ele resolveu observar o sol se pôr de cima de um paredão de rochas que dava pro mar. as ondas quebravam metros abaixo dele. os ventos frios anunciavam o fim do outono. não se veria uma tarde daquelas por um bom tempo, ele pensou. puxou o zíper de sua jaqueta, e se protegeu o máximo que pôde. ele não queria sair dali.

observar o fim de tarde pra ele era um momento mágico, ímpar, sem igual: havia se tornado um ritual ver o sol desaparecer no horizonte desde que se mudou para aquela pequena cidade costeira. a casa que ele tinha perto da praia tinha uma vista boa, mas nada melhor do que aquele paredão. ali ele tinha total paz. absoluta tranquilidade. incomparável liberdade.

tirou um saca-rolhas de seu bolso, abriu uma garrafa de vinho que havia trazido consigo, encheu uma taça de vinho e a ergueu alto, como se fosse oferecer um brinde. "ao esplendor do entardecer", disse, tendo apenas como testemunhas algumas gaivotas, as ondas que quebravam, nuvens escuras que anunciavam uma tempestade iminente e o sol, que fugia do dia, dos raios e dos trovões, se escondendo além do horizonte.

e o astro-rei lentamente se foi no horizonte. com perplexidade, tal espetáculo da natureza era admirado por ele. as nuvens negras já estavam tomando conta dos céus neste momento, e era necessário que ele voltasse pra casa, antes fosse apanhado pelo temporal que se aproximava.

assim chegou em sua casa. mais um dia se encerrou. era o fim de um período, de uma estação, de uma época. e isso não podia passar despercebido. ouvindo o som das primeiras gotas de chuva, que anunciavam uma noite tempestuosa, ele acendeu uma vela, pegou café, acendeu um cigarro e ficou mudo, deixando toda a agitação dentro de si se esvair e tomar conta das ondas.

quinta-feira, 29 de agosto de 2013

ode ao poente

sentado num barco que acompanhava a marola, via a costa ficar cada vez mais distante. a cor avermelhada dos paredões de rochas nas quais a água tranquilamente batia se tornava sombra ao passo que eu via a terra firme se afastar de mim. o barco fez uma curva, e deixei de ver o solo, a terra, o porto e fui apresentado ao sol poente, o momento mais espetacular do dia, no qual a mágica da transição entre dia e noite, luz e trevas, calor e frio, claro e escuro acontecia.

o astro-rei brilhava e fazia um espetáculo no céu de tonalidades azuladas e alaranjadas. seus raios se refletiam nas águas. o barco balançava pouco, apenas deslizava sobre as águas. era um cenário estupendo, uma vista sublime. a brisa suave de um fim de tarde, a água gelada, os tons surreais no céu, o reflexo do sol naquele lago; tudo era real.

assim o barco ia rumando, navegando e se movendo por sobre as águas daquele tão belo lago, e cada vez mais o sol se escondia no horizonte, completando o seu papel na maravilhosa e perfeita obra da criação divina. observando tudo isso, lá estava eu, um mero nada diante de tanta beleza e grandeza, com meu bloco de notas em mãos. deixei a escrita pra lá e apenas observei calado, estupefato, maravilhado, o último raio de sol sumir no horizonte.

quarta-feira, 14 de agosto de 2013

reflexões (texto III): fluxo de conflitos

(III de III)

a alternância de conflitos e a dicotomia representada no bem e no mal, no certo e no errado, no claro e no escuro, só para citar alguns exemplos, representam e sintetizam assim a luta que é inerente ao ser humano: as escolhas.

se a vida flui como um rio, tal como no conceito de panta rhei atribuído a Heráclito de Éfeso, por vezes encontramos neste rio trechos diferentes. ora estamos em águas tranquilas, ora encontramos uma correnteza furiosa. ora o rio tem margens largas, ora estamos num pequeno córrego.

vemos aí nesse contraste um fluxo de conflitos, e é nesse fluxo de conflitos que a nossa existência é baseada. por mais contrastante que seja esse fluxo, alternando períodos de calmaria com turbulência, somos transformados em cada transição, transformação essa que, dentro dessa corrente a qual conhecemos como existência ou vida, já está escrita e prevista milênios antes de nossa concepção.

mas, de toda forma, por mais turbulenta, contraditória, paradoxal e conturbada que seja a nossa existência terrena, temos a certeza e a esperança de que um dia, não importa quando, nosso rio por fim desaguará no oceano, onde encontraremos paz, descanso e conforto.

domingo, 11 de agosto de 2013

reflexões (texto II): nada perece

(II de III)

omnia mutantur, nihil interit”.

em uma daquelas madrugadas nas quais a insônia acaba fazendo uma visita, andei lendo e me deparei com esta frase. “tudo muda, nada perece” poderia ser uma tradução bem concisa de como a ordem das coisas acontece na minha vida.

talvez perceber todas as experiências – quer sejam elas boas ou ruins – como algo que pertence exclusivamente ao passado, e dessa forma fazer com que elas estejam resumidas apenas a este período de tempo não faz sentido, concluí depois de pensar e analisar a frase acima.

negar a influência dos fatos passados no tempo presente e no futuro, quer seja este algo próximo ou distante é agir de forma tola. não é porque algo que já passou e agora está sepultado no passado cessa de ter seus efeitos no agora ou no amanhã. se eu agi de forma errada antes, aprendi com meus erros e passei a agir de forma oposta, tomando um caminho diferente daquele que me levou a falhar, ou se agi de maneira correta, percebi que estou já na estrada que leva ao sucesso e ao bem-estar, seja ele intrapessoal ou interpessoal.

é nesse conflito de situações que vou me aperfeiçoando. gosto de comparar estes conflitos a uma forma de lapidar, de moldar uma pedra bruta, para que assim ela assuma a aparência de uma verdadeira obra de arte. a pedra, que outrora não possuía forma e valor, começa a tomar forma, seus excessos são retirados, cortados, possibilitando assim que ela assuma a forma imaginada por seu Criador – tudo acaba se transformando, mas nada perece. é aí que a frase 'omnia mutantur, nihil interit', composta pelo poeta romano Óvidio, começa a fazer sentido.